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À espera de um milagre

          Um dos filmes mais bonitos e emocionantes que vi na vida foi Á espera de um milagre. (À Espera de um Milagre, no original em inglês The Green Mile, é um filme estadunidense de 1999, do gênero drama, dirigido e roteirizado por Frank Darabont, baseado no livro homônimo de Stephen King, lançado em 1996. O filme é narrado em flashback e estrela Tom Hanks, como Paul Edgecomb, e Michael Clarke Duncan, como John Coffey, narrando a história de Paul e de sua vida como agente penitenciário do corredor da morte durante a Grande Depressão e os eventos sobrenaturais por ele presenciados. – Wikipédia). Aparentemente o milagre tão desejado não acontece, porque nossa limitada percepção humana apenas acredita naquilo que é tangível, palpável, material.

          Um paciente com câncer deseja um milagre. Implora, muitas vezes, por um, independentemente de sua crença religiosa. O milagre é a concretização do impossível, do inimaginável, do poder de uma entidade divina. Nada mais é que o desejo de viver atendido, o presente supremo de continuidade da vida, uma prorrogação do jogo do viver, mesmo que seja apenas isso: uma singela prorrogação. Na concepção desejada pelo doente, milagre seria um indício da participação divina num acontecimento, que se revela por uma alteração súbita e fora do comum das leis da natureza (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa).

          A morte, assim como a vida, é um milagre. Tudo que tem vida um dia morrerá. Será substituído pelo novo com sua carga de promessas. Vislumbramos em nossos descendentes um ar de imortalidade e fazemos um exercício de desapego ao deixar nosso espaço para outro ocupar e que, talvez, usufruirá do dom da vida bem melhor que nós. Apegamo-nos, contudo, tanto ao cotidiano que não percebemos que já nascemos com uma sentença determinada para um dia qualquer de nossa existência. Mesmo que consigamos pequenos milagres no dia a dia, como sobreviver a uma queda ou acidente, nossa hora chegará. Apesar dessa certeza, sofremos, ficamos deprimidos, imploramos, choramos, perturbamos a nós mesmos e aos outros com nossa fragilidade espiritual.

          Milagres existem. Nossa própria vida é um ótimo exemplo de milagre. De nosso primeiro choro ao último suspiro, confirmamos que a existência humana é milagrosa. Olhando a natureza, o ser humano, os animais, nossos filhos e netos, temos em nós um toque suave de eternidade. Existem hoje remédios e tratamentos que prolongam o tempo vital e, até mesmo, curam um câncer, mas, se chegar nossa hora de morrer, para que lamentar, sofrer, morrer diversas vezes por antecipação?

          Curar-se de um câncer terminal subverte todos os princípios científicos. Será impossível? Atualmente, nem sempre. Entretanto, no mundo em que vivemos, a doença é explorada como produto. São oferecidos tratamentos não convencionais que de nada adiantam além de perda de tempo e de paz de espírito. Tentando fugir da dor e de um tratamento penoso, porém mais eficaz, muitos se colocam nas mãos de charlatães, exploradores e mentirosos. Não se deve pensar que só os ignorantes buscam essas alternativas, pois o grande mago da informática, Steve Jobs, recusou-se a se submeter a uma cirurgia, por não se julgar preparado para ter seu corpo cortado, e optou por um tratamento natural (regime de frutas) por um ano. No final do prazo estava, além do câncer de pâncreas, com o fígado comprometido. Todos conhecem o final da história.

          No filme À espera de um milagre, diversos eventos acontecem de forma mágica, como a amizade entre o guarda e o prisioneiro, o dom especial do condenado e, o mais importante, mesmo impossibilitado de ajudar o amigo a salvar-se, o milagre da continuação da vida acontece. Impotente contra a burocracia do sistema, o guarda sofre por não conseguir livrar o amigo da sentença de morte, mesmo sabendo de sua inocência. O prisioneiro, porém, morreu com dignidade e esta é uma alternativa que nos é oferecida. Podemos espernear, atormentar os outros, revoltarmo-nos, mas nada impedirá o curso da vida. A opção é entregar-se com confiança nas mãos de Deus, do universo, da natureza e cumprir a última função de uma vida: terminá-la com brilho e luz. Um verdadeiro milagre!

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

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