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Dor amiga

         A dor assusta o homem. Ela o lembra de sua fragilidade física. Há dias de desilusão, desânimo, exaustão física, de deitar na cama e deixar o mundo girar como se não pertencesse a ele. Dias sombrios de fechar portas e janelas, permanecer no escuro, sofrendo solitário. Nesses momentos, vem o pensamento de descansar definitivamente, de libertar-se do corpo dolorido. Por um momento. A permissão para entregar-se precisa ser curta. Uma fração de tempo para desistir da vida. A entrega traz paz,  recuperam-se as forças, a vida vem com novo ânimo e o espírito fragilizado encontra o sol.
          Dá muito medo enfrentar um câncer. O medo de sofrer é devastador. Alguns não conseguem nem pronunciar o nome da doença, pois nominá-la é a afirmação da morte. Todavia, o pensamento não se cala e persiste em lembrar o que se deseja esquecer. Entretanto, é possível reverter a negatividade e pensar produtivamente.
           Há apenas duas maneiras de enfrentar o câncer emocionalmente e as dores que traz consigo: negativa e positiva. Assume-se a forma negativa de agir quando se sofre por antecedência: "Estou sendo castigado! Como vou sofrer!". Na forma positiva, a questão é: "Por que não eu? O que poderei fazer para me curar? Como enfrentarei a dor? Assim, é dizer como Gianecchini:" Estou pronto para a luta".
         Uma atitude proativa é encarar a dor como amiga. Ela é a afirmação maior de vida. O corpo sofre porque está vivo. Esta lição de dor aprendi com um Frei.  Há, no Brasil e em quase todos os países do mundo, grupos de oração chamados Oficinas de Oração e Vida. Foram criados pelo Frei Ignacio Larrañaga, nascido na Espanha e residente no Chile. Os grupos se reúnem durante 15 semanas para aprender diversas modalidades de oração e ter um contato mais efetivo com a Bíblia. O Frei em uma de suas palestras afirma que a dor é amiga. Os inimigos, nós os criamos. Se estabelecemos uma relação de harmonia e aceitação da dor, ela se torna nossa companheira, confidente, uma amiga verdadeira. Nas noites insones, cheias de reflexões e, às vezes, recriminações sobre o passado, mansa ou doídamente está ao nosso lado. Permite-nos recobrar nossa fé, permite-nos o exercício da humildade e de agradecimento a todos os pesquisadores e cientistas que descobriram formas de amenizá-la. Benditos sejam aqueles que nos proporcionaram os analgésicos!
          Quer um conselho para conviver com sua dor? Faça como os dependentes químicos: viva só por hoje. Só por hoje, levante-se, encontre forças para viver, para apreciar o mundo disponível para você. Se não puder sair, deixe o sol entrar por uma janela. Um simples raio de sol é um milagre de vida. Crie dias ensolarados em sua mente. Viva com sol permanente brilhando em suas dores. Só por hoje, não lamente e poupe seus parentes e amigos de suas dores, pois talvez a deles (emocional) seja bem maior que as suas físicas, preocupados com você e com sua saúde. Só por hoje, olhe todos com os olhos cheios de amor, procure ver por trás das aparências o valor de cada um. Só por hoje, seja gentil com quem cuida de você: parentes, empregados, serventes, enfermeiros, médicos. Só por hoje, não se irrite se tudo não correr como deseja, se não receber a visita que tanto espera ou a palavra que necessita ouvir. Só por hoje, abrace sua dor com carinho, aceite-a com amor, pois ela é só sua. Cuidado! Só por hoje, não a transmita aos outros em forma de recriminações, cobranças inúteis e revolta. Só por hoje, demonstre todo o amor que é capaz de sentir, pois a economia de sentimentos é a maior covardia que podemos ter para com nossos parentes e amigos e uma perda irreparável de sentimento ao longo de nossa vida.
          Finalmente, agradeça a Deus pela dor. Com ela, creia, você está melhor espiritualmente, percebe e entende o espírito humano, torna-se capaz de perdoar incondicionalmente a tudo e a todos, até a você mesmo. Que venha a dor e você a enfrente com paz!
          

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

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