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E Se...

          Não existe nada pior na vida que o “se”. Ele representa culpa, frustração, possibilidade não concretizada, enfim, a falência de um desejo ou ação. Invariavelmente surge quando se ouve um diagnóstico de câncer, acompanhado de questões dolorosas e previsíveis: “se eu tivesse cuidado melhor de minha saúde... se eu tivesse prestado mais atenção aos meus sintomas... se eu não tivesse prorrogado aquela consulta... se... se... se”.

          O “se” é uma conjunção condicional, uma hipótese, uma probabilidade boa ou ruim, sempre ligada a uma conclusão lógica e possível: se eu me trato, eu me curo; se eu me trato, posso não me curar; se eu não me trato, com, certeza, não me curo, pois o câncer é impiedoso. Por ser hipotético, traz dúvida, insegurança, culpa e medo. É estressante para o ser humano conviver com possibilidades. Tudo seria tão mais simples e melhor se as perguntas existenciais já viessem respondidas, como nos antigos questionários de Geografia e História de tempos passados nas escolas, ou nem tanto. A cada pergunta apenas uma resposta. Que alívio! Mas...

          A vida é desafiadora e não apresenta respostas prontas ou únicas. Cada ser humano apresenta um histórico de vida, com elementos determinantes para ter uma ou outra doença. Evidentemente os hábitos de alimentação e de comportamento serão detonadores de alguns males físicos. Se o ser humano deixa para amanhã controlar o colesterol, largar o cigarro e praticar exercícios físicos, a contabilidade vital vai ficando em débito com a saúde. Depois nada mais restará, senão lamentar e fazer mentalmente uma interminável lista de elementos hipotéticos, quando receber um diagnóstico que sempre achou ser possível apenas para os outros.

          Culpa e arrependimentos nada ajudarão no tratamento. Curar-se de um câncer exige coragem e força espiritual. Coragem de receber o impacto, absorver sua força e esta ser transformada em reação. Chorar e lamentar-se num primeiro momento é natural, mas só no primeiro momento. A desolação deve ser substituída pela força em Deus, pela fé e esperança na cura e em um possível milagre. Lágrimas e depressão não curam câncer. A recuperação da saúde exigirá comportamentos ativos e de cooperação com os médicos. Atualmente é enorme, em muitos casos total, a possibilidade de cura ou de prolongamento digno da vida. Mais que todos os avanços da medicina, entretanto, a atitude positiva e de enfrentamento aberto da doença é o primeiro passo na caminhada para a sobrevivência.

          Abandonar o “se” negativo e pensar proativamente, mas a seu favor, antecipando e visualizando a melhora de sua saúde, ajudará o paciente a curar-se. Dentro do possível, continuar com as atividades rotineiras e também acrescentar outras, substituindo antigas por algumas que sempre desejou fazer e nunca pôde, ou para as quais não houve teve tempo disponível é a chave para aproveitar a vida presente. Esquecer culpas e arrependimentos, colocará o passado  em seu devido lugar: no passado. Recriminar-se, por mais que queira, não moverá um segundo já vivido, não interferirá em um milionésimo de suas ações antigas. Pensar com arrependimento é reviver os problemas inúmeras vezes e magoar-se, prejudicando-se. Guardar as energias para lutar contra o câncer, aproveitar a vida que está aí para viver e trocar o “se” pelo “eu posso”, “eu quero”, “eu mereço viver”, é questão de bom senso e sabedoria.         

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira  

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG 

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