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Malas vazias, Coração cheio

          Uma das principais características humanas mais evidentes, em todas as épocas e principalmente na atualidade, é a de acumular objetos, bens. O homem passa a vida  atrás de dinheiro para comprar aquilo que o satisfaça, que supostamente o enobreça, que lhe dê status e que represente tudo o que merece ou julga merecer. O grande problema é a consciência da finitude, isto é, quando o homem percebe que vai morrer. Um dia todos irão morrer, não é verdade? O que fazer com as tranqueiras? No final, tudo é tranqueira. Alguém já viu um morto levar algo material para o além da vida?

          Sempre encontro na internet uma mensagem sobre Alexandre, o Grande, que representa bem a ideia acima. Dizem que antes de morrer ordenou que seu caixão fosse carregado pelos médicos mais eminentes da corte, para provar aos homens que , quando há um desejo superior, a morte é infalível. Também solicitou que todas as suas riquezas fossem colocadas lado a lado, no percurso para seu túmulo, mostrando que tudo que se acumulou na Terra na Terra fica. Pediu também que suas mãos ficassem balançando à vista de todos, para que tivessem a percepção de que  chegamos de mãos vazias à vida e à morte  também  assim vamos. Foi muito sábio esse rei.

          Vivemos na Era do Ter. Nosso desejo é acumular de bens a amigos. As grandes lojas e o Facebook que o digam. Tudo tem que ser em grande quantidade, mesmo que não caiba nas mãos e se precise de ajudantes para carregar os produtos de consumo cotidiano. Ao observar a maximização de tudo, tenho saudade do tempo da carência, também de tudo. Esperávamos, no mínimo, três anos para se conseguir uma linha telefônica, com ligações intermediadas por uma telefonista. Tevê? Apenas uma na única sala da casa, onde se reunia a família toda noite e se comia bolinho de chuva. Quando criança, só havia uma fábrica de brinquedos, a Estrela, que lançava a cada Natal pouquíssimos exemplares e, se quiséssemos um, tínhamos que correr para consegui-lo. E quem queria brinquedo industrializado? O bom mesmo era subir em árvore, andar de patinete, brincar de pique-esconde, jogar bolinha de gude e finco. Baú de brinquedos? Nem pensar! O que seria guardado ali dentro? Mas éramos muito, muito felizes!

          O sentimento de acumulação hoje exige uma ânsia de sempre querer mais. As casas hoje estão cheias de supérfluos, atulhadas de inutilidades, com os objetos ocupando o lugar dos homens. Assim, o sentimento de propriedade, indevidamente, vai se fortificando nos corações, quando, na verdade, nada temos. Tudo nos foi emprestado- não somos donos de nada- e um dia teremos que deixar o acumulado, mesmo que não queiramos. Jamais iremos de malas cheias de elementos materiais ao outro lado da vida. Só levaremos um único item na bagagem: o saldo de nossa vida, um coração cheio de amor e de boas obras.

           Se fôssemos bons observadores, enxergaríamos que todos queremos e precisamos desesperadamente de amor, de carinho, de um ombro amigo, de palavras de força e de solidariedade. Podemos dividir todos os dias os dons que recebemos e vermos, milagrosamente, que quanto mais repartimos, mais temos. Há a multiplicação do amor, similar à multiplicação bíblica dos pães, que é também um milagre. Nosso bom testamento seria aquele com distribuição de boas lembranças aos parentes, afeto aos amigos, solidariedade aos desconhecidos, deixando atrás de nós a falta pungente de nossa presença. Iríamos embora (em boa hora)  de malas vazias, mas de coração cheio de verdadeira humanidade.

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

 

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

 

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