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Minimamente feliz 2

         Quando ouvimos o diagnóstico de uma doença grave, temos a oportunidade de pensar em felicidade. Muitos caem na crença padronizada de dizer e pensar, realmente acreditando, que “Eu era feliz e não sabia”. Nada mais improdutivo e inútil. Felicidade não acaba porque se adoece, pois ela permanece de outras formas. Uma doença é, às vezes, a verdadeira e única chance de descobrirmos o que é verdadeiramente felicidade. Vivemos em uma época superlativa, quando tudo tem que ser obrigatoriamente mais. A busca pela felicidade transformou-se em uma obsessão coletiva e não é tolerado que ela seja pequena, pois tem que ser do tamanho de uma superstar. A felicidade é um grande prêmio que todos desejam ganhar no mundo atual e tornou-se obrigatório ser feliz. Se você se contentar ou sentir-se feliz com pouco, causa espanto e, muitas vezes, incredulidade por sua baixa percepção e não uso dos recursos disponíveis para ser tremendamente feliz. A felicidade (Espante-se!) é um dom essencialmente particular, único. Sua felicidade não é e nem deve ser a minha. Cada indivíduo é singular e sua singularidade monta junto com outros seres humanos um perfil de diversidade ilimitado e belo. Sentir-se bem é o resultado de uma vida vivida em grupo, superficialmente, e a sós, permanentemente. As experiências vividas, os modelos aprendidos e assimilados conscientemente ou não se unem em um amontoado de sentimentos e emoções que emergem aleatoriamente, em cada ocasião cotidiana, e se refletem em uma sensação de bem-estar e de acomodação psicológica. A leitura de um bom livro, o término de um trabalho artesanal ou de uma faxina caprichada na casa, mesmo a visão de um dia de sol esplendoroso sem a moldura de janelas, um novo emprego, o encontro com as amigas, uma visita (telefonema ou e- mail) de um amigo querido, o carinho de um filho, o sorriso de uma neta ou o abraço de que tanto precisava são e podem ser sempre o despertar de um sentimento completo de felicidade. Muitos acharão ser pouca, pequena, ridícula mesmo essa sensação de plenitude e de “tudo de bom” que nos enche a alma com o mínimo. Por que a felicidade tem que ser grande, se ela assim é rara ou produto inexistente no mercado da vida? Fomos educados para esperar e buscar a grandiosidade, mas o viver é pequeno, embora fantástico. Hoje cultuamos palavras como maximização (Esta já está meio esquecidinha, mas ainda é lembrada às vezes.), empreendedorismo e outras que lembram uma obrigação, um dever a cumprir, uma meta a alcançar. O grande problema (A gente aprende tarde, infelizmente) é que felicidade não é meta a ser atingida, pura e simplesmente é o percurso vivido, o dia a dia, um misto de pequenos sucessos, frustrações, alegrias e conquistas. Aquela FELICIDADE em letras maiúsculas e compulsória não existe. 

       Ser feliz é atingir seus sonhos, mesmo que eles sejam triviais. É olhar o tempo passado e sorrir com suas lembranças. Pinçar dos retratos (Desculpe, fotos. É mais moderno!) a emoção dos momentos vividos. Lembrar com carinho dos bebês, das viagens farofeiras para a praia, das celebrações de aniversários com aqueles bolinhos feitos em casa que careciam de beleza estonteante, mas repletos de amor, das formaturas e casamentos. Felicidade é poder chorar de saudade dos pais e amigos que já se foram, mas permanecem tão vivos em nosso coração que é possível ouvir sua voz e gozar de sua presença, mesmo que seja só na imaginação e nos sonhos. Felicidade também é ver que seus esforços geraram pessoas de bem, independentes, responsáveis, gerando no presente novos frutos que carregarão sua marca indelével de passagem por este planeta. FELICIDADE é viver cada dia com seus desejos mínimos realizados, com menos dor, com sua doença sob controle, com a possibilidade de usufruir por mais um tempo desse milagre, dessa dádiva que é a VIDA. FELICIDADE é simplesmente reconhecer-se humano, com acertos e erros, perdas e ganhos. Felicidade é o presente bem vivido, é seu desejo de paz e tranquilidade interior realizado, mesmo que com menos dinheiro e sem grandes pretensões. Felicidade é acordar todos os dias com paz no coração, bendizendo a Deus pela oportunidade insubstituível de ser dono de seu dia e do tempo que lhe resta na Terra.

      Enfim, felicidade é encontrar mais em menos.

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

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