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Morrer: estágios e passos

          O homem paga um alto preço por sua racionalidade. Ao mesmo tempo que ela  lhe garantiu, e ainda garante, domínio sobre si mesmo, sobre outros homens e sobre a natureza, não o livrou das questões existenciais. A morte é a principal delas. Ele, mesmo que não queira, sofre com sua inexorável finitude.

          No dia a dia, quando tudo está bem, a vida corre tranquila e afirma uma garantia de eternidade. Entretanto, em um momento qualquer, muitas vezes de modo imprevisível, abate-se sobre o ser desprevenido uma sentença de morte: uma doença grave. O fantasma e a sombra companheira da inimaginável surgem na mente: “Por que eu? Por que agora?”. O pensamento da proximidade da morte dói pela afirmação da impotência humana sobre o inevitável. O mundo continuará igual, exatamente igual como é, após sua morte. Pessoas continuarão nascendo, crescendo, trabalhando, amando, vivendo. Quem se lembrará de um pequeno ser no meio da multidão de 7 bilhões de humanos? Quem sentirá sua ausência e chorará sua morte?

          Saber que vai morrer traz sofrimento ao homem e muitos pesquisadores se preocuparam com esse problema. Em um trabalho sobre a reação psíquica determinada pela experiência com a morte e a dor que desperta, Elisabeth Kubler-Ross descreveu-a como tendo cinco estágios (Berkowitz, 2001). Os primeiros mecanismos de defesa são a  negação e o isolamento  que não duram muito tempo, pois, como é impossível negar as evidências, surge a raiva como desabafo, revolta, inveja ( Por que eu e não ele? Tanta gente ruim não morre!) e ressentimento contra todos e contra a própria vida. O passo posterior natural é a tentativa de negociação, chamada barganha, geralmente com um ente divino, uma espécie de troca, pois o doente lhe oferece algo (seu trabalho, sua disponibilidade de tempo, o abandono de um vício) em troca de um adiamento da morte. Como viver e morrer são mercadorias inegociáveis, a depressão se instala, quando o doente percebe sua própria fragilidade frente à realidade incontornável: “Chegou minha hora”. Os sentimentos de perda e, ainda maior, de pena ( Viver é tão bom! Sou tão novo! Como minha família ficará sem mim?) produzem desânimo , choro e tristeza. O último estágio é o da aceitação plena, assumindo serena e racionalmente a finalização do ciclo vital, com a própria morte.

          O homem racional age irracionalmente frente a morte e, por isso, sofre. Deve-se seguir o conselho de Cassiano Ricardo, em O Relógio:"Diante de coisa tão doída/Conservemo-nos serenos./Cada minuto da vida/Nunca é mais, é sempre menos./Ser é apenas uma face/Do não ser, e não do ser./Desde o instante em que se nasce/Já se começa a morrer". Este é o padrão da natureza e o homem nada mais é que uma espécie tão frágil como qualquer outra entre o emaranhado de seres vivos do planeta. O pensamento da morte, porém, não o atrai e até busca meios para vencê-la, com tratamentos ilusórios e, até mesmo com recursos cuja eficácia  não  foi comprovada, como a criogenia.

           Por que não é possível aceitar a morte e encará-la com dignidade? Se é inevitável, o que fazer? O primeiro passo deve ser o de estabelecer um balanço de vida. A análise do vivido é sábia e encaminhará o doente a traçar ações para realizar, enquanto sobrevive à doença. Com o levantamento, pode dar o segundo passo: a reconciliação consigo e com os outros. A paz renasce na certeza de que não levará mágoas ou sentimentos inúteis como um fardo espiritual. O próximo é a expressão de amor à família e aos amigos ao dizer a todos que mereçam ouvir isso que os ama e como a convivência com eles o fizeram feliz e realizado. É uma atitude de carinho e amparo para os que sofrerão com sua ausência. Não se pode esquecer, nesse momento, de questões práticas: a divisão dos bens materiais, sem desapego, pois irá embora de mãos vazias. Essa atitude evitará desentendimentos e brigas entre familiares. O derradeiro passo deve ser o agradecimento a Deus pela vida com que foi presenteado e pela morte que se aproxima para finalizá-la, entregando-se totalmente em suas mãos e descansando em paz, dignamente.

 

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

 

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

 

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