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Olhos para ver

          O paciente e seus familiares sentem o mundo desmoronar quando ouvem o diagnóstico confirmando a existência de um câncer. Tudo aquilo que era certo e palpável transforma-se em um caos emocional. O primeiro pensamento recai sobre a morte, uma certeza inquestionável, mas sempre, no pensamento, deixada para outro dia. O desencanto instala-se traiçoeiro e leva a questionamentos dolorosos: poderia ter desfrutado mais da companhia de parentes e amigos, deveria ter trabalhado menos e curtido mais a vida, quantas oportunidades de encontrar as pessoas queridas desperdiçadas pelo pouco tempo disponível (ou pouca vontade?). A seguir, vem a impotência frente  a realidade da pequenez humana  e da impossibilidade de  agir contra forças maiores que o ser humano.

          A morte é uma sombra companheira do homem. Ninguém pode dela escapar ou subestimá-la. Quando uma doença grave se aproxima, é impossível não se lembrar da tocaia permanente a que nos sujeita. Mas, se por um lado é certa, por outro não deixa de ser uma rara oportunidade para a reflexão ou mesmo para o trabalho. A proximidade da morte nos proporciona  dores físicas e emocionais, mas também uma nova visão da vida e das fragilidades humanas. Todos os dias convivemos com parentes, amigos e pessoas diversas de modo superficial e rotineiro. Não as enxergamos como indispensáveis a nossa vida ou nos dispomos a vê-las com olhos de amor e carinho. Ver é algo muito complicado.  A doença tira a venda de nossos olhos. Despe-nos de crenças irreais e de sonhos fúteis: a palavra de amor e perdão que relutamos dizer para não abdicar de nossa superioridade ou mesmo o trabalho que nos garante a aquisição de bens de consumo. Resta-nos um conjunto de vazios e surge uma massa de desejos prioritários, como encontrar um bom médico, um hospital adequado, uma possibilidade de cura, uma chance de mais um tempo de vida, um pouco mais de prazo (muitas vezes inegociável) para realizar o que deixamos escorrer pelos dedos.

          Tudo na vida é lucro, mesmo a dor, o sofrimento, a doença e a perda. Crescemos quando sofremos. Vemos a realidade quando nos deparamos com o inevitável, avaliamos o tempo perdido, a chance de amor desperdiçada, a palavra de carinho guardada egoisticamente, a mão caridosa recolhida, o perdão negado. Portanto, não importa o final da história de um paciente, pois os momentos que ainda viver serão sempre uma dádiva, um presente divino, uma oportunidade de reconciliar-se consigo mesmo, com os parentes, com os amigos, com a fé e com a própria vida.

 

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

 

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