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Questões polêmicas: eutanásia, distanásia e ortotanásia

          O termo eutanásia deriva do grego “euthanasía”, do latim “euthanasia” e significa  “morte sem sofrimento”, ato de proporcionar morte sem sofrimento a um doente atingido por afecção incurável que produz dores intoleráveis (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). É a morte fácil e sem dor. A distanásia (do grego “dis”, mal e “thánatos”, morte) é etimologicamente o oposto da eutanásia. Consiste em atrasar o mais possível o momento da morte usando todos os meios, ainda que não haja esperança alguma de cura, com sofrimento ao moribundo, adiando a morte por umas horas ou uns dias. Etimologicamente, ortotanásia significa morte correta: "orto" certo, "thánatos" morte. Significa o não prolongamento artificial do processo de morte, além do natural. A ortotanásia não se confunde com a eutanásia, pois nesta  se  abrevia a morte do paciente terminal a pedido dele.          A expectativa de vida no final do século XIX girava em torno de 34 anos. No século XX, os grandes avanços tecnológicos e científicos prolongaram o viver, chegando a cerca de 80 anos na última década. Como consequência , assistimos ao  aumento de algumas doenças crônicas e de muitos tipos de cânceres. Milhares de pacientes encontram-se em uma situação irreversível no seu quadro clínico e a opção pela ortotanásia se faz mais presente no dia a dia dos consultórios e hospitais, com os pacientes mais bem informados e conscientes de seu estado de saúde.         

           Cresce atualmente , no Brasil, a opção pela ortotanásia, que coloca em evidência a Medicina Paliativa. Os cuidados paliativos destinam-se a proporcionar bem-estar e conforto aos pacientes nas fases finais de uma enfermidade grave. Isso significa que é possível enfrentar  os últimos dias de vida    sem dor e com sintomas controlados. Esse comportamento supõe dignidade para o doente, não lhe impondo nenhum tipo de constrangimento emocional ou físico. Os cuidados paliativos não se destinam a prolongar a vida, mas também não aceleram a morte, como na eutanásia.

          A Era da Comunicação, além de conhecimentos e informações, trouxe novos impasses morais e opções de difícil escolha.  A ortotanásia ainda assusta os familiares que se sentem culpados por supostamente  não proporcionarem a seu ente querido todas as facilidades e alternativas para o prolongamento da vida, mesmo que artificialmente. De certa maneira , é um consolo ter o parente “vivo”. Muitas vezes não  pensam  nas condições do doente e em seu sofrimento e apenas desejam mantê-lo em tratamento o maior tempo possível. Deve sempre prevalecer nesse momento a vontade do paciente e seu desejo deve ser respeitado, mesmo que isso signifique abreviar, de forma natural,  seu tempo de vida.

          Todo ser humano sabe que vai morrer um dia e geralmente aspira a uma morte tranquila, sem grandes dores e sofrimentos. Mais que um desejo, é um direito opinar sobre a que tratamento (ou não) deva ser submetido. Essa questão não pode ser um tabu. Nunca falar sobre a morte é negá-la, é adiar uma situação emergente e natural no cotidiano familiar. Temer a morte ou ignorá-la  trará sofrimento, arrependimentos e cobranças no futuro. Como tudo na vida, a morte também deve ser pensada, pois é um fato que um dia todos enfrentarão e precisam estar preparados para fazer uma escolha difícil em uma situação de emergência e de estresse.

          A eutanásia no Brasil configura crime e nenhum médico pode realizá-la sem ferir seu compromisso ético, portanto a lei brasileira impossibilita sua aplicação. Já a  distanásia e a ortotanásia são opções viáveis para o doente e seus familiares, porém não vêm isentas de princípios morais, pessoais e humanos. Há questões envolvidas nos dois processos muito angustiantes, pessoais e indiscutíveis sob o parâmetro individual. Portanto, pensar sobre a morte é eleger a vida como prioridade pessoal e uma oportunidade imperdível para dar a esta o valor que tem e merece ter. 

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

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