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Saudade do futuro

         O futuro é uma incógnita. Ninguém pode prevê-lo em sua verdadeira dimensão, e sim apenas vislumbrá-lo hipoteticamente. Por isso, o vir a ser  abre inúmeras possibilidades para a imaginação. As crianças lidam bem com a fantasia, com a mágica que o amanhã proporciona. São felizes em sua ânsia de viver e de buscar o que possa fazê-las felizes.

          Os adultos continuam crianças sem saber. Chegam a uma idade em que sonham com a concretização do imaginário. A vida irretocável, a casa dos sonhos e o emprego certo precisam ser alcançados. Aquela família feliz dos antigos seriados americanos (pai, mãe, filha e filho), com sorriso imutável no rosto, ainda persiste no imaginário de muitos. O sorriso eterno  de felicidade e a vida sem crise são deslumbrantes, maravilhosas. O cotidiano, porém, derruba essas ilusões.

          Quando  somos pequenos, crianças ainda, criamos uma vida fantástica. No futuro, teremos uma profissão ideal, uma carreira promissora, uma família perfeita, um amor para toda a vida. Todos os nossos sonhos serão realizados. Merecemos o melhor e teremos o melhor de tudo.  Vamos crescendo e a dura realidade nos engole. O sonho exige muito trabalho, disciplina, renúncias. As relações humanas se deterioram. Os desafios parecem maiores que nossa capacidade de gerenciá-los. O vir a ser vai ficando cada vez mais a ser. Vivemos administrando crises e esperando que Shangri-La  - localidade ideal descrita por James Hilton em sua novela Horizontes Perdidos-  materialize-se em nossa vida.

           A busca pelo futuro nos desliga do presente e de suas infinitas possibilidades. Deixamos de desfrutar o presente que é o tempo real. Podemos até nos satisfazer com o sonho, mas ele é apenas isso, um sonho. Viver é administrar crises. Se isso é uma realidade, devemos e podemos “matar um dragão por dia” (Segundo a lenda, São Jorge salvou a princesa Sabra de ser morta por um dragão que exigia o sacrifício de uma donzela por dia e casou-se com ela.), até mesmo mais de um. Se pensamos assim, a rotina diária torna-se suportável, pois não  seremos apenas marionetes manipuladas pelo destino, sem condição de gerir a própria vida.. A vida não vira sofrimento, derrota, abandono e solidão. Se  não há  dor, não há crescimento. Se  acreditamos em nossa força espiritual e interior, nossa mente busca fatos, razões e  motivos que nos animam e nos levam a encarar sem conflitos ou sofrimentos as dificuldades que teremos de enfrentar.

          A vida não é difícil, ela está temporariamente difícil. Esse pensamento  leva à ação e à crença de que tudo passa, e isso que nos  aflige agora  também passará. Pode ser uma necessidade financeira, um conflito familiar, uma doença séria, um tratamento difícil, uma crise que parece interminável ou insolúvel. Tudo passa. Então não dificultemos mais nossa vida, acreditando que o futuro que imaginamos para nós será sempre melhor que o momento presente. O presente é só o que temos. O passado não nos pertence mais. Se erramos, sofremos ou nos distanciamos de nosso futuro imaginário, “já era”, já foi. O presente está aí a nosso dispor com sua multiplicidade de ofertas. Podemos escolher ser felizes hoje, agora, ou protelar mais uma vez a felicidade. Podemos criar e reproduzir  dragões ou enfrentá-los. De perto, bem de perto, todo dragão é uma lagartixa, só que bem crescida.

          Bem melhor é ter saudade do passado bem vivido no presente e , mais que bem vivido, construído no presente. Desalentos, incompreensões e soluções para os conflitos  fora do nosso limitado alcance humano não podem ser entraves para nossa felicidade  hoje. Temos um tempo muito limitado para cumprir nosso ciclo de vida. Não passaremos impunes por ele, pois carregaremos nosso fardo de acertos e erros por toda a  nossa breve vida. Podemos, se quisermos, abreviar nossas tristezas, se nos dispusermos a abrir o coração para a vida, para os outros e para nós mesmos, com aceitação de que podemos muito pouco apesar de todos os nossos esforços, mas isso não é  empecilho para a felicidade possível hoje. 

Autora: Maria Auxiliadora de Andrade Vieira

Professora de Língua Portuguesa formada pela Universidade de Lavras - MG

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